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Um Ribatejano Tranquilo

Numa palavra, um mundo, na tua ausência, o meu mundo.

Todos os textos não assinados são da minha autoria. Proibida a reprodução sem autorização expressa.

25 de Abril

 

Heart – Jiri Sebek

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Nesta madrugada em que se fez liberdade

Resto eu, fitando a luz mortiça que dos salgueiros

Na calma da noite se vai espalhando em redor

De um espaço que deixou de existir.

Este é o meu reflexo

 

Reflection #1 – A  R Images

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Este é o meu reflexo

Fragmentos dos fragmentos em que me tornei

Negro e cinzento, no limite do que é observável

Purga que de mim vai escorrendo

A mim retornando

Compondo no sal

Sea road- Robert Green

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Mesmo quando os ecos reverberarem para além dos montes longínquos

Ou se as luzes já estiverem esbatidas sobre as copas das árvores de cristal

Ainda que sejam ténues os sons dos pássaros que se agasalham no cair da tarde

E os insectos façam raiar nas suas asas os prantos da natureza que adormece

Saberei que por remota que seja a minha comparência na tua memória

Persistirei com a garra de quem sobrevive no vaivém das ondas em falésias de mar agreste

Compondo no sal das minhas lágrimas a irrepreensível perfeição do teu ser

neblina

Quiet Dawn #2 – Karel Sobota

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da porta da minha cabana

imaginária

vejo o nascer do dia e imagino

por entre a neblina

que preguiçosamente flui

os teus paços na margem

do lago que são os meus pensamentos

imaginando-te

A luz da noite

 

In the Night – Paolo Rella 

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Podia ficar aqui simplesmente sentado, como tantas vezes faço

E tu nem saberias que me deixo quedar, atravessando a madrugada

Perdido no imenso lago que são os teus olhos, e apenas vogar.

Permitia-me declinar ao fundo do teu sorriso, e contemplar com cansaço

Os pálidos raios de lua que atravessam as lembranças e descansam na almofada

Que acolhe este corpo esgotado de noite após noite simplesmente esperar.

Rumaria talvez guiado pela estrela que no horizonte paulatinamente desfaço

No barco que é o teu corpo e me baloiça ao sabor da coisa ansiada

Para por fim, ao primeiro raio de sol, tomar a dolorosa decisão de simplesmente acordar.

Desejos

 

Riflessi dopo la pioggia – Gabriele Simonetti

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Há no teu cândido sorriso o sabor da fruta madura
Das tardes de verão em que percebemos que estamos vivos
Apenas porque o sol está ali para nos aquecer, e a aragem
Que sopra dos ramos dos salgueiros traz perfumes
Que nos fazem apetecer encher o peito de ar, e ir por ali
Estrada fora à conquista dos reinos onde por nós espera
Uma princesa cujo cândido sorriso tem o sabor da fruta madura…

Há no teu porte o desejo que o dia dure nem que seja mais um segundo
Para que um piscar de olhos não desperdice o tempo em que posso
Ficar simplesmente no recato do fundo de uma sala,
Quedo na contemplação do modo como pousas as mãos
Como se o mundo fosse a taça que ergues no brinde à vida
E eu, apenas uma das almas que no torvelinho dos suplicantes
Vê no teu porte o desejo que hoje, só hoje (e amanhã, e depois de amanhã…)

Mesmo agora quando já não provo da fruta do teu sorriso
E apenas me limito a recriar o teu porte na memória que de ti guardo
Continuo a desejar que o segundo que injustamente me é roubado
Pudesse ir descobrir-te perdida num reino de conquista feroz
Que me fizesse provar-te que o desdém pela minha morte
É sincero e mais não deseja que se cerrar de vez os olhos
Estes o façam ao toque suave das tuas mãos, num brinde eterno.

Cobertores de pedra

S/t – Alberto Pérez

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Um dia deixarei de percorrer os caminhos de pedra gasta

Nas noites em que os ventos rugem na minha cabeça

Feras soltas do circo que foi a vida

E as colunas desabarão como peças de cartão prensado.

Na luz baça que me acompanha vejo o tempo parado

E encosto-me às mesmas paredes que visito sem cessar

Fitando as rachas que o bolor vai tomando candidamente

Faço força, e nada desaba sobre a calçada da memória.

 

Um dia a noite será dos justos e dos puros

Dos imaculados que se consolam na rectitude do seu estar

E nós, os sem pátria do nosso contentamento

Pousaremos o olhar sobre a pedra e faremos dela

O cobertor que finalmente nos cobrirá.

Há inverno

 

 First Winter Day – Luis Arguelles

 

Há inverno nos caminhos de pedra

E nos átrios das casas de passe.

Nas bancas vazias das peixeiras

Nos olhares baços dos cães famintos.

Há inverno nos cumes dos montes

E nos estendais de roupas puídas.

Nos navios que apodrecem nos cais

E nos jardins com bancos de granito.

Há cinzento espalhado pelas paisagens

E azul, e roxo, e preto,

Contaminando as qualidades das coisas sós

Como fungos engolindo a matéria parda.

 

Talvez o ano tivesse sido luminoso e eu nem notasse

Snow day – Bill Zhong

 

Talvez o ano tivesse sido luminoso e eu nem notasse

Tal a intensidade do frio que me percorreu

Que de repente, se eu tivesse ficado desperto e acordasse

Do longo inverno que sobre mim desceu,

Apenas ficasse encadeado e nem reparasse

Que se tratava apenas de um sorriso teu.

Mundo liquefeito

s/t
________

Vladimir Funtack

 

Nos meus vagares
No enquadramento perfeito da paisagem
Observo um mundo liquefeito
E refaço, com mil olhares
A linha indefinida de uma margem
Que tenho guardada no interior do peito.


 

O sorvedouro

 

Eugene – Denis Grzetic

 

Na alvorada dos tempos que vão perecendo

Subsiste aquele indefinível sentir do abandono

Perto daquele sorvedouro de sentimentos

A que alguns chamam

Coração.

Pelo raiar do dia vou aconchegando a solidão

Pegando nas migalhas que ainda conservo

De banquetes onde me deliciei com o fruto

Proibido.

Vendo ao longe passar os vapores que não aportam

E que poderiam trazer – quem sabe

A passageira que há muito pisou convés e zarpou

Na tarde em que o sol teimava em dourar as paredes

Dos casarões que de repente deixaram de ter janelas.

A maré recuou, e nunca mais beijará meus pés

Cansados

De caminhar pelas ruelas desta cidade que desconheço

De tanto a percorrer de olhos vendados.

 

Um sol de chumbo

 

Last man standing - Bianca Van Der Werf

 

Sob um sol de chumbo

Caminho por entre a paisagem lunar

Fazendo do cinzento a cor única

Pela qual renovo a condição

De caminhante dos sentidos embotados

Até que o metal caia sobre a Terra

E do cadinho nasça novo ser.

Sou o idiota

A Rider at Dusk
______________

Umair Ghani
 
 

 

Sou o idiota que procura no horizonte

O fim do mundo

Para o ultrapassar, num passo destemido

E assim conhecer da alma, o fundo

Que se não alcança por estar destruída a ponte

Entre o universo que imagino e aquele em que vivo,

Sofrido.

 

Sou o cavaleiro da lança de desejo

Que rasga o ar em investidas de bobo.

Pantomina que descreve os sonhos e as certezas

No galope com que enfrento sem pejo

O riso dos que me dizem que já não há lobo

Que valha a pena perseguir.

 

Sou o fazedor de pó na estrada sem fim

Carregando num alforge a flor murcha

Que nunca entregarei.

 

Talvez um dia alguém se lembre de mim

E diga que me viu passar na estrada ao ocaso,

Envergando a lança num porte galhardo

Sorriso nos lábios, cara de idiota,

Ar de bobo e pose de desejo.

 

O Branco

slenders
--------
Nilgun Kara

 

O branco nos meus olhos, o branco

No horizonte sem mácula.

O silêncio que está em mim, o vazio

No vento que murmura o nome.

Ramos indicando o limite superior

Perturbando a linha que me segura.

O branco.

 

 

Cheiro o vento

 

Nose to the Wind :) - Contantin Gribov

 

Por entre a matilha cheiro o vento que brota

No útero da dos bosques de folhas douradas

Procurando nos vestígios dos seres que voam

O começo do Inverno que se vai estabelecer

No horizonte dos chãos que são meu lar.

 

Talvez este ano a neve seja menos nívea

E as colinas revelem um pouco da alma

Ao percorrer os trilhos que vou adivinhando

Por ser pastor e único ser do meu destino

Até que um dia se fundam as sólidas águas.

Os pilares dos palácios de água

 

De onde se percebe o sabor do vento

E a cor da luz, onde se pode medir

Como andam os sonhos, onde se podem guardar

Senão no vazio das coisas que não temos?

Dos cantos que entoam as árvores abatidas

Construo as paredes das cabanas de sol

Por entre os desejos que não têm substância

E destruo os pilares dos palácios de água.

Iglesia Perigord - José A. Gallego

 

A luz que me cega

Fotografia:

A ponte iluminada
_________

Luna
 

 

A luz que me cega, e o vazio

Na parte mais pequena da existência

Sáo as estrelas que me fazem correr

Na longura do caminho ausente.

A luz que me cega, é o meu amparo

Nos dias em que nem sol de prumo

Me deixa ver para que lado é o meu Este

Esguendo os dedos que tacteiam, suplicando.

 

 

Poema a um dia esquecido

   
 
 
 
 

Não me falem das pequenas coisas do mundo

Que dessas entendo eu, e não as quero!

Nem falem das grandes coisas do mundo

Pois delas nada posso receber, nem as espero.

Nem me sussurrem as coisas escondidas do mundo

Pois delas pouco consigo ver, quando consigo!

Nem me gritem as coisas evidentes do mundo

Quer de tão visíveis, ofuscam o que guardo comigo.

Fico-me na candura do olhar e no doce cheiro do perfume

Na leveza do toque, tão imaterial quanto perene.

Woman in Window

Jared Martin

 
   
       

Verdes anos

Um

dia  
 
quando
for grande...

Black or White

Luz e escuridão.

Eu bem tento abraçar

Aquele que melhor me quer dar.

Mas o outro, de tanto pousar

No ombro da minha vida

Acaba por a vontade encurtar

De eu próprio levantar voo

E voar.

tempo

O

TEMPO

Não

   
 
t
e
n
h
o
     

Fado

   
O  

MEU 

 
 
M
E
U
 
FADO D
E
S
T
I
N
O

Sonho

SONHAVA SONHO
  SONO

 

 
S
O
N
H
E
I
 
     

Chuva

C
H
U
V
A
 
 
  N
A
 

M
I
N
H
A
 
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U
A

A abelha, a velha e o rapaz (e a pedra)

Fotografia:
s/n
_________

Dave MCraken
 

 

Certo dia uma veloz abelha

Voando sem qualquer destino

Encontrou uma velha muito velha

Caminhando com um rapaz.

- Onde vais com tanta pressa, abelha?

Indagou o rapaz, saltando de pedra em pedra

- Vou depressa tentar encontrar uma velha

Que leve pela mão um menino 

Que pule de pedra em pedra – disse a abelha.

O rapaz ficou assombrado e segredou para a velha:

- Esta abelha não pode ser muito esperta

Pois se tu és velha e eu rapaz e galgo de pedra em pedra…

Então a velha riu-se para o rapaz

Que brotava de pedra em pedra

E disse-lhe afagando o rosto:

- Na verdade a abelha é muito esperta

Pois o que ela queria não era topar velha

Nem rapaz que medrasse de pedra em pedra

Mas antes dizer-te que se volitarmos bem depressa

Acharemos tudo o que pretendermos,

Muitas vezes antes que saibamos que já encontrámos.

O rapaz, enlevado com estas palavras

Deu um biqueiro tal numa pedra

Que grazinou enquanto pinchava ao pé-coxinho:

- Pois eu acabei de descobrir uma pedra

Que não fazia ideia que ia encontrar…