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Um Ribatejano TranquiloNuma palavra, um mundo, na tua ausência, o meu mundo.
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Em cores douradasLes Jardins de Blossac – Aline Nedelec _________________________________________________________________________________________
Na tua distância me vou perdendo em cores douradas Sabendo que estás aqui, no dobrar da linha do horizonte Cheirando o vento que me traz a tua presença Recuo no tempo, e sento-me num banco de ninguém. Na minha frente alongam-se as sombras do fim do dia O ar fere os pulmões com a fresquidão das estrelas que surgem Curiosas da noite que será novamente delas Reclamando aquilo que o tempo nunca lhes roubará. A praia
S/t. Uduards Nipers ___________________________________________________________________________ Mesmo agora que os murmúrios se pressentem, e se calam No recorte das ilhas verdes, que no horizonte assomam As nuvens beijando a água, a água de espuma rendilhada Vou percorrendo a linha da costa, e o meu olhar perde-se ali na dobra Deste universo feito de vento e de areias pousadas na quietude do momento. Há pequenas ondas que vêm morrer a meus pés, frescas de novas que são E reflexos de verdes e púrpuras que se movem sobre o plano líquido Pintando os meus olhos de esperança e deixando na boca o gosto salgado Do cheiro das algas que flutuam e se vêm deitar para sempre nas rochas Fazendo cobertores que tão depressa estão como desaparecem sob a maré. Gaivotas sobrevoam o mundo, e o mundo é um enorme aeroporto Porto de abrigo e ponto de partidas, gritos e asas, olhos redondos Nas patas a vontade de rasgar a água, nas asas a necessidade de rasgar o vento E eu, que me fico quedo de espanto procurando perceber porque estou a mais Talvez pergunte às gaivotas, se não me querem levar de vez, sobrevoar o mar. E pousar numa praia da qual ninguém conhece princípio nem fim, nem marca de maré. Lendo com blues
Abandoned reading – J. B. Ellis_____________________________________________________________________________________
Esgota-se o verão na luz coada da tarde Nos espasmos da leitura que me embala, Ao som da voz rouca da Billie Holiday Embalando a tristeza entre duas batidas de coração. Já não conduzo os comboios da minha imaginação
“Inside the old caboose” – Jose Garcia _____________________________________
Já não conduzo os comboios da minha imaginação Nem as gares já subsistem na espera que nelas me detenha Recostadas nas dobras dos montes, rodeadas de árvores de fruta madura Na doçura das tardes de aragens leves e mornas. Já não se ouve o grito agudo da minha locomotiva Ordenando aos basbaques que se afastem, pois eis que estou a chegar Ao cais que se encontra vergado na horizontalidade da minha serventia Suportando os passageiros de fatos de domingo engomados. Já não levo comigo os sonhos dos que vão buscar a fortuna Nas capitais dos futuros mais confortáveis Nem as angústias dos que se despedem para não mais voltar Às veredas que um dia lhes deram as alegrias da infância. Sou apenas a nódoa de ferrugem que vai engordando Na mudez queda da inevitabilidade da morte Procurando manter-me inexpugnável ao camartelo do destino Até que por fim, também eu sucumba ao comboio da vida. 25 de Abril
Heart – Jiri Sebek _____________________________________________________________________________________ Nesta madrugada em que se fez liberdade Resto eu, fitando a luz mortiça que dos salgueiros Na calma da noite se vai espalhando em redor De um espaço que deixou de existir. Este é o meu reflexo Reflection #1 – A R Images ____________________________________________
Este é o meu reflexo Fragmentos dos fragmentos em que me tornei Negro e cinzento, no limite do que é observável Purga que de mim vai escorrendo A mim retornando Compondo no sal
Sea road- Robert Green _______________________________________________
Mesmo quando os ecos reverberarem para além dos montes longínquos Ou se as luzes já estiverem esbatidas sobre as copas das árvores de cristal Ainda que sejam ténues os sons dos pássaros que se agasalham no cair da tarde E os insectos façam raiar nas suas asas os prantos da natureza que adormece Saberei que por remota que seja a minha comparência na tua memória Persistirei com a garra de quem sobrevive no vaivém das ondas em falésias de mar agreste Compondo no sal das minhas lágrimas a irrepreensível perfeição do teu ser neblina
Quiet Dawn #2 – Karel Sobota ______________________________
da porta da minha cabana imaginária vejo o nascer do dia e imagino por entre a neblina que preguiçosamente flui os teus paços na margem do lago que são os meus pensamentos imaginando-te
A luz da noite In the Night – Paolo Rella ________________________________________________________________________
Podia ficar aqui simplesmente sentado, como tantas vezes faço E tu nem saberias que me deixo quedar, atravessando a madrugada Perdido no imenso lago que são os teus olhos, e apenas vogar. Permitia-me declinar ao fundo do teu sorriso, e contemplar com cansaço Os pálidos raios de lua que atravessam as lembranças e descansam na almofada Que acolhe este corpo esgotado de noite após noite simplesmente esperar. Rumaria talvez guiado pela estrela que no horizonte paulatinamente desfaço No barco que é o teu corpo e me baloiça ao sabor da coisa ansiada Para por fim, ao primeiro raio de sol, tomar a dolorosa decisão de simplesmente acordar.
Desejos
Riflessi dopo la pioggia – Gabriele Simonetti ________________________________________________________________ Há no teu cândido sorriso o sabor da fruta madura Há no teu porte o desejo que o dia dure nem que seja mais um segundo Mesmo agora quando já não provo da fruta do teu sorriso Cobertores de pedra
S/t – Alberto Pérez ______________________________________ Um dia deixarei de percorrer os caminhos de pedra gasta Nas noites em que os ventos rugem na minha cabeça Feras soltas do circo que foi a vida E as colunas desabarão como peças de cartão prensado. Na luz baça que me acompanha vejo o tempo parado E encosto-me às mesmas paredes que visito sem cessar Fitando as rachas que o bolor vai tomando candidamente Faço força, e nada desaba sobre a calçada da memória.
Um dia a noite será dos justos e dos puros Dos imaculados que se consolam na rectitude do seu estar E nós, os sem pátria do nosso contentamento Pousaremos o olhar sobre a pedra e faremos dela O cobertor que finalmente nos cobrirá. Há inverno
Talvez o ano tivesse sido luminoso e eu nem notasse
Snow day – Bill Zhong
Talvez o ano tivesse sido luminoso e eu nem notasse Tal a intensidade do frio que me percorreu Que de repente, se eu tivesse ficado desperto e acordasse Do longo inverno que sobre mim desceu, Apenas ficasse encadeado e nem reparasse Que se tratava apenas de um sorriso teu. Mundo liquefeito
O sorvedouro
Um sol de chumbo
Sou o idiota
O Branco
Cheiro o vento
Os pilares dos palácios de água
A luz que me cega
Poema a um dia esquecido
Verdes anos
Black or White
tempo
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